Monday, February 19, 2007

Estio na Terceira

Arde o Sol, o suor cai em correntes
Espigas loiras espalham-se pela messe
O céu é azul, no ar voam aves contentes
Isto é o Verão a estação que queima, aquece

Ali a praia está pejada de gente
Que se bronzeia, uma onda que se espraiece
Há um colorido cor de chama, de luz ardente
A terra prenhe de vida sonhar parece

Há uma alegria, uma energia que tudo vence
Ah que bom é esse calor, brilhante luz
Em compasso com o espaço o coração sente
O ritmo do sol que o domina e o seduz

Há uma tourada, verte o sangue encarnado
Há uma algazarra pelos muros da aldeia
Parecem mal-me-queres cada sorriso agaitado
Papoilas os lábios de toda a moça da Terceira

No vaso sangra algum cravo vermelho puro
No céu se ergue muita exilada, verde palmeira
A ilha vive uma liberdade, o touro é tudo
Lateja o sangue, vermelho é o vinho, um beijo queima

Isto é Verão, isto é Estio, é uma alegria
Esta ilha é um Alentejo, Espanha creio
No jardim há muita rosa e flôr garrida
Ah, esta é a estação do calor e amor brejeiro

Cobertas de mantilhas as raparigas
Até parecem las muchachas de Sevilha
Nas São Joaninas se ouvem as suas cantigas
Elas são a lava, o lume e a seiva desta ilha

Arde o Sol, o suor cai em correntes
Aí estão já à porta as Joaninas
Angra é das cidades mais atraentes
Nestas noites de Estio, libertinas

Thursday, January 04, 2007

Aquele Caminho

Aquele atalho que leva ao bosque
Dois trilhos tem de terra calçada
A erva cresce pelo meio à sorte
Beija-o a luz do sol de madrugada

Uma fila de postos ligados por arame
Fazem uma cerca que o divide do pasto
Não há ninguém que ao ali passar não ame
Poder parar ou prolongar o seu passo

Aquele caminho cheio de vida e liberdade
Onde um passarinho veio pousar chilreando
Não sei porquê, me fez pensar de verdade
Não sei porquê, me fez parar pensando

Por ali passaram em algum tempo os cruzados
Muito soldados sangrando e gemendo
Passando eu - junto a eles os meus passos
Sou mero momento debaixo de um céu cinzento

Um breve instante, como gorgeiar de passáro
Uma mera sombra que pousando logo voa
A vida é uma miragem, um ilusão do espaço
Ai dói a alma, saber que tudo é pó - mágoa

Só este caminho entre caminhos esquecido
Parece a única coisa eternamente existindo
Parado fico para desvendar o sentido
Daquele atalho por onde passo sózinho.

Sunday, December 31, 2006

Rúbrica do Pensar
O sonho é a rúbrica do pensar
Do sentir, do viver, do existir
Olhai as crianças no seu brincar
Tudo sonhando podem assumir


Serem reis, correr, saltar, voar
Tudo podem ser e conseguir
O sonho pode tudo construir
--Para sonhar, basta se só acreditar


Por isso eu creio, espero e amo
Sonhar-- que a vida é ela todo um sonho
Nele toda a minha fé e esperança ponho
Oh sonho, oh ilusão, oh Deus, eu clamo


Ajuda-me a sonhar, manter o voo
Que me eleve--ave leve num mundo novo


Silvério Gabriel de Melo. Vogelbach, Alemanha

Aquele Caminho
Aquele atalho que leva ao bosque
Dois trilhos tem de terra calçada
A erva cresce pelo meio à sorte
Beija-o a luz do sol de madrugada

Uma fila de postos ligados por arame
Fazem uma cerca que o divide do pasto
Não há ninguém que ao ali passar não ame
Poder parar ou prolongar o seu passo

Aquele caminho cheio de vida e liberdade
Onde um passarinho veio pousar chilreando
Não sei porquê, me fez pensar de verdade
Não sei porquê, me fez parar pensando

Por ali passaram em algum tempo os cruzados
Muito soldados sangrando e gemendo
Passando eu - junto a eles os meus passos
Sou mero momento debaixo de um céu cinzento

Um breve instante, como gorgeiar de passáro
Uma mera sombra que pousando logo voa
A vida é uma miragem, um ilusão do espaço
Ai dói a alma, saber que tudo é pó - mágoa

Só este caminho entre caminhos esquecido
Parece a única coisa eternamente existindo
Parado fico para desvendar o sentido
Daquele atalho por onde passo sózinho.

Silvério Gabriel de Melo (Vogelbach, Alemanha

Saturday, December 23, 2006

Imerso num mar de idéias, em silêncio
No escuro do quarto, não consigo dormir
Ouço ao longe o som d'uma estrada, o movimento
O zumbido, rugido de veículos num ir e vir

Cerrando os olhos, submergindo em mim, tento
Deslocar-me ao tempo que vivi a sorrir
Reactivar lugares e gentes, um momento
de felicidade , de vida, de sentir

A vida é sim uma via em sentido único
Ficam-nos nos olhos as lágrimas, o desejo
De se nunca chegar ao fim da viagem

Viver é um passar, seguir um certo rumo
Com os nossos sentidos, nossa alma mesmo
--Cada dia vivido, parte da paisagem

Silvério Gabriel de Melo

Saturday, November 11, 2006

Vida Ilha

Somos filhos de Deus, um Deus ausente
Somos filhos de Deus, um Deus em viagem
Ele faz-se presente na vida da gente
Ele faz-se connosco, sua a nossa imagem

O Deus de um universo espalhado no imenso
O Deus do infinito, infinitamente fragmentado
No nosso coração ele vive, faz-se centro
De toda a criação ele nos coloca ao seu lado

“Eloi, Eloi , lema sabachthani!”
Eloi, Eloi, depois da morte vem a vida
O nosso corpo é uma doca que nos prende a si
Onde barcos atracam, a nossa alma é uma ilha

Viver é deixar chegar e partir navios ao nosso cais
Saber que para além do mar muita terra há ainda mais

SGDM

Quando era criança lembro-me de irmos para a doca de Ponta Delgada, naquela altura de então, recentemente construída, para nos despedirmos ou irmos buscar quem quer que fosse que partisse ou chegasse de viagem.

Junto aos grandes navios transponhamos o nosso mundo ilhéu e éramos transplantados para um mundo surreal, isso especialmente à noite, quando a luzes dos navios acesas davam a impressão de estarmos junto a cidades fluviais. Cada navio era uma essência de países, continentes para além da nossa realidade que nos fascinava.

Uma aura de luz e de encanto dominava a doca que até visitávamos em dias feriados ou fins de semanas, visto que não haviam restrinções algumas e a entrada para ela era de livre acesso.

Durante o dia, com o Sol a brilhar parecia então uma bela sereia espraiando-se no meio do mar. Em noites estreladas essas luzes conseguiam trazer à terra o mesmo brilho e encanto que o enorme universo por cima de nós. Tudo luzia, resplandecia de uma forma mágica ali.

Olhando a superfície da água, encantavamo-nos com as cintilações reluzentes, o capacho coruscante, qual tapete mágico, que se estendia até à Avenida Marginal no outro lado da baía. Dali a cidade de Ponta Delgada brilhava com a presença desses navios e sentia-se nas suas veias o salgado e profundeza do mar. A doca era assim um altar do deus Posidon , do deus neptuno, que ali defrente de Ponta Delgada se estendia dando à cidade um carácter próprio do mar, do vasto mar.

Sempre que um navio chegava ou partia ouvia-se o prolongado silvo, o apito agigantado que nos fazia, criança que éramos, estremecer por dentro. Ao ouvi-los sabíamos que um vapor entrava na doca. Da Avenida marginal assistíamos à rebocagem dos navios pelos barcos pilotos. Havia sempre um navio que chegava e um navio que partia. Quando a doca estava cheia, a cidade fazia até mais sentido. A doca completava-a. Era parte integrante dela.

Se o navio era estrangeiro, então a fascinação era ainda maior. As ruas enchiam-se de turistas com suas excentricidades; gente loura e alta, bem vestidos, de óculos escuros, máquinas fotográficas aos ombros e hálitos e odores perfumados. Eram ondas de mundos diferentes que invadiam a terra e lá deixavam a sua formosa presença.

Da Ilha viajava-se naquela altura só por grande necessidade. A maior parte das pessoas até nunca viajava. Com esses navios estavam ligadas as vidas e destinos de muita gente. Para longe iam os seminaristas que iam estudar para serem padres na Terceira. Durante a guerra no ultramar, eram os soldados que partiam ou vinham de Lisboa. Havia um vai e vem de marinheiros, de soldados, de oficiais; a cidade era banhada por ondas a seguir de ondas deles, quer dos nossos, quer dos barcos de guerra estrangeiros.

Ir para doca esperar por alguém ou despedirmo-nos de alguém, era pois uma ocasião especial. Aí os barcos tinham um cariz dominante. Era mundos que se imponham ao nosso mundo. Os passageiros debruçados sobre as amuradas dos navios pareciam seres vindos de outras dimensões, com vidas e existências paralelas ao do nosso mundo, que ali estavam, mas também estavam longe ao mesmo tempo. Do nosso vazio ilhéu olhàvamos fascinados, colados ao chão como hiptnotizados por tais presenças.

Dos momentos mais excitantes do nosso passeio à doca, era então quando o navio se afastava. Depois de acenarmos um adeus às pessoas que partiam junto ao casco do navio, súbitamente por uns pequenos momentos eramos confrontados com o fenómeno da partida. Por estarmos próximo, quando o navio se deslocava, ficávamos com a sensação que era a doca e tudo à nossa roda que se movimentava. Víamos de súbito, conforme acenavámos para as pessoas do barco, tudo correr e afastar-se. O navio parecia parado, e éramos nós que navegavamos, nos afastavamos dali. Só depois de alguns momentos caíamos em nós e reparávamos que era o navio que se distanciava de nós, que não era não a doca que se afastava do navio. A ilusão era infalível.

Assim aprendi que com cada partida, partíamos nós. Com cada chegada, chegávamos nós. Por isso tenho saudades da nossa cidade, Ponta Delgada, ali no meio do Oceano Atlântico e essa sua doca feita um altar ao deus Posidon; das suas oblações de chegadas e partidas, de gente que vinha e de gente que ía, dessas inúmeras ocasiões de se viajar em terra firme e nos sentirmos na realidade filhos do Mar.

Até que Ponta Delgada era qual navio mãe no meio do vasto oceano. Era o seu dia à dia navios como o Carvalho Araújo, o Cedros, o Ponta Delgada, o Funchal; quem os poderá ter esquecido? Algo neles era uma encarnação do Sol e do Mar que nos incutiam com o desejo de partir, de viajar, de conhecer o mundo.

Da nossa casa víamo-los aproximar e afastar assim como víamos os golfinhos, a toninhas saltar em bando em dias cinzentos de Inverno. Fazíamos parte desse painel vivo do mar, dessa tela bonita que era Ponta Delgada, cidade atlântida. Ali a presença da doca era realmente fulcral.

Hoje em dia, Ponta Delgada está a atingir essa fascinação que sempre teve, que lhe vem do mar. Hoje são os projectos da Portas do Mar que lhe irão dar aquele fascínio que se vivia na doca de outrora e que a farão ainda mais aquilo para o que foi criada, uma cidade virada para o mar.
...
Hoje da minha casa vejo chegar e partir aviões e uns vão e outros vêm de guerras, assim mesmo como nos tempos em que era criança. Do continente chega a TAP como um Carvalho Araújo ou aviões em rotas internacionais como um Príncipe Perfeito de terras mais longe. A Sata, como o nosso Cedros, o nosso Ponta Delgada ou Funchal certinha parte e chega, sobrevoa mesmo por cima do meu terraço. Irónicamente é exactamente o mesmo cenário. Algum dia por aqui irão aterrar as naves espaciais volvidas do espaço e aqui será um elo de estações satélites lá fora. Aposto. Tudo parece servir para aquilo que se foi criado afinal.

Até, bem vistas as coisas, todos nós somos docas da Vida. Viver, é ser-se cais para um mundo em viagem; é ser porto para uma mão cheia de ambições, de vontades, desejos e sonhos. São as amarras as nossas emoções, sentimentos, pensamentos, memórias. Vive-se como se espera numa doca o momento da partida.

Silvério Gabriel de Melo