Saturday, November 11, 2006

Vida Ilha

Somos filhos de Deus, um Deus ausente
Somos filhos de Deus, um Deus em viagem
Ele faz-se presente na vida da gente
Ele faz-se connosco, sua a nossa imagem

O Deus de um universo espalhado no imenso
O Deus do infinito, infinitamente fragmentado
No nosso coração ele vive, faz-se centro
De toda a criação ele nos coloca ao seu lado

“Eloi, Eloi , lema sabachthani!”
Eloi, Eloi, depois da morte vem a vida
O nosso corpo é uma doca que nos prende a si
Onde barcos atracam, a nossa alma é uma ilha

Viver é deixar chegar e partir navios ao nosso cais
Saber que para além do mar muita terra há ainda mais

SGDM

Quando era criança lembro-me de irmos para a doca de Ponta Delgada, naquela altura de então, recentemente construída, para nos despedirmos ou irmos buscar quem quer que fosse que partisse ou chegasse de viagem.

Junto aos grandes navios transponhamos o nosso mundo ilhéu e éramos transplantados para um mundo surreal, isso especialmente à noite, quando a luzes dos navios acesas davam a impressão de estarmos junto a cidades fluviais. Cada navio era uma essência de países, continentes para além da nossa realidade que nos fascinava.

Uma aura de luz e de encanto dominava a doca que até visitávamos em dias feriados ou fins de semanas, visto que não haviam restrinções algumas e a entrada para ela era de livre acesso.

Durante o dia, com o Sol a brilhar parecia então uma bela sereia espraiando-se no meio do mar. Em noites estreladas essas luzes conseguiam trazer à terra o mesmo brilho e encanto que o enorme universo por cima de nós. Tudo luzia, resplandecia de uma forma mágica ali.

Olhando a superfície da água, encantavamo-nos com as cintilações reluzentes, o capacho coruscante, qual tapete mágico, que se estendia até à Avenida Marginal no outro lado da baía. Dali a cidade de Ponta Delgada brilhava com a presença desses navios e sentia-se nas suas veias o salgado e profundeza do mar. A doca era assim um altar do deus Posidon , do deus neptuno, que ali defrente de Ponta Delgada se estendia dando à cidade um carácter próprio do mar, do vasto mar.

Sempre que um navio chegava ou partia ouvia-se o prolongado silvo, o apito agigantado que nos fazia, criança que éramos, estremecer por dentro. Ao ouvi-los sabíamos que um vapor entrava na doca. Da Avenida marginal assistíamos à rebocagem dos navios pelos barcos pilotos. Havia sempre um navio que chegava e um navio que partia. Quando a doca estava cheia, a cidade fazia até mais sentido. A doca completava-a. Era parte integrante dela.

Se o navio era estrangeiro, então a fascinação era ainda maior. As ruas enchiam-se de turistas com suas excentricidades; gente loura e alta, bem vestidos, de óculos escuros, máquinas fotográficas aos ombros e hálitos e odores perfumados. Eram ondas de mundos diferentes que invadiam a terra e lá deixavam a sua formosa presença.

Da Ilha viajava-se naquela altura só por grande necessidade. A maior parte das pessoas até nunca viajava. Com esses navios estavam ligadas as vidas e destinos de muita gente. Para longe iam os seminaristas que iam estudar para serem padres na Terceira. Durante a guerra no ultramar, eram os soldados que partiam ou vinham de Lisboa. Havia um vai e vem de marinheiros, de soldados, de oficiais; a cidade era banhada por ondas a seguir de ondas deles, quer dos nossos, quer dos barcos de guerra estrangeiros.

Ir para doca esperar por alguém ou despedirmo-nos de alguém, era pois uma ocasião especial. Aí os barcos tinham um cariz dominante. Era mundos que se imponham ao nosso mundo. Os passageiros debruçados sobre as amuradas dos navios pareciam seres vindos de outras dimensões, com vidas e existências paralelas ao do nosso mundo, que ali estavam, mas também estavam longe ao mesmo tempo. Do nosso vazio ilhéu olhàvamos fascinados, colados ao chão como hiptnotizados por tais presenças.

Dos momentos mais excitantes do nosso passeio à doca, era então quando o navio se afastava. Depois de acenarmos um adeus às pessoas que partiam junto ao casco do navio, súbitamente por uns pequenos momentos eramos confrontados com o fenómeno da partida. Por estarmos próximo, quando o navio se deslocava, ficávamos com a sensação que era a doca e tudo à nossa roda que se movimentava. Víamos de súbito, conforme acenavámos para as pessoas do barco, tudo correr e afastar-se. O navio parecia parado, e éramos nós que navegavamos, nos afastavamos dali. Só depois de alguns momentos caíamos em nós e reparávamos que era o navio que se distanciava de nós, que não era não a doca que se afastava do navio. A ilusão era infalível.

Assim aprendi que com cada partida, partíamos nós. Com cada chegada, chegávamos nós. Por isso tenho saudades da nossa cidade, Ponta Delgada, ali no meio do Oceano Atlântico e essa sua doca feita um altar ao deus Posidon; das suas oblações de chegadas e partidas, de gente que vinha e de gente que ía, dessas inúmeras ocasiões de se viajar em terra firme e nos sentirmos na realidade filhos do Mar.

Até que Ponta Delgada era qual navio mãe no meio do vasto oceano. Era o seu dia à dia navios como o Carvalho Araújo, o Cedros, o Ponta Delgada, o Funchal; quem os poderá ter esquecido? Algo neles era uma encarnação do Sol e do Mar que nos incutiam com o desejo de partir, de viajar, de conhecer o mundo.

Da nossa casa víamo-los aproximar e afastar assim como víamos os golfinhos, a toninhas saltar em bando em dias cinzentos de Inverno. Fazíamos parte desse painel vivo do mar, dessa tela bonita que era Ponta Delgada, cidade atlântida. Ali a presença da doca era realmente fulcral.

Hoje em dia, Ponta Delgada está a atingir essa fascinação que sempre teve, que lhe vem do mar. Hoje são os projectos da Portas do Mar que lhe irão dar aquele fascínio que se vivia na doca de outrora e que a farão ainda mais aquilo para o que foi criada, uma cidade virada para o mar.
...
Hoje da minha casa vejo chegar e partir aviões e uns vão e outros vêm de guerras, assim mesmo como nos tempos em que era criança. Do continente chega a TAP como um Carvalho Araújo ou aviões em rotas internacionais como um Príncipe Perfeito de terras mais longe. A Sata, como o nosso Cedros, o nosso Ponta Delgada ou Funchal certinha parte e chega, sobrevoa mesmo por cima do meu terraço. Irónicamente é exactamente o mesmo cenário. Algum dia por aqui irão aterrar as naves espaciais volvidas do espaço e aqui será um elo de estações satélites lá fora. Aposto. Tudo parece servir para aquilo que se foi criado afinal.

Até, bem vistas as coisas, todos nós somos docas da Vida. Viver, é ser-se cais para um mundo em viagem; é ser porto para uma mão cheia de ambições, de vontades, desejos e sonhos. São as amarras as nossas emoções, sentimentos, pensamentos, memórias. Vive-se como se espera numa doca o momento da partida.

Silvério Gabriel de Melo